Curiosidades

DO COLÉGIO DE S. TOMÁS AO PALÁCIO DA JUSTIÇA DE COIMBRA

 

     Em 1537, por decisão do monarca D. João III, deu-se a transferência definitiva da Universidade de Lisboa para Coimbra, acompanhada da reforma dos estudos gerais imbuída do espírito do movimento humanístico renascentista, então reinante nas principais universidades europeias, com grande destaque na de Paris e de Salamanca. Coube a Frei Brás de Braga, monge culto e empreendedor, conjeturar o traçado da Rua da Sofia, ou da Sabedoria, onde seriam alinhados os vários colégios universitários, ligados a ordens religiosas com funções de pensionato, assistência e ensino, e que irá revolucionar, em termos urbanísticos e culturais, uma vasta área anexa ao Mosteiro de Santa Cruz, desde a Praça de Sanção ao Arco de Santa Margarida. Esta artéria, de feição renascentista de invulgar largura e extensão, é toda ela um monumento à sabedoria, à cultura e às artes. Nela foram edificados os seguintes colégios: S. Miguel e Todos os Santos, S. Boaventura, S. Bernardo, Carmo, Graça, S. Domingos, S. Pedro dos Terceiros e S. Tomás.

     O Colégio de S. Tomás, dedicado ao estudo de Teologia e Filosofia, com risco arquitetónico de Diogo de Castilho, terá começado a ser construído em 1549, sob a direção do seu Reitor Frei Martinho de Ledesma (religioso espanhol da Ordem de S. Domingos e Lente de Escritura na Faculdade de Teologia). O Portal do Colégio foi contratado aos mestres Pêro Luís, João Luís e António Fernandes por 40 mil réis. Este Portal foi retirado em 1930 e aplicado na fachada norte do Museu Machado de Castro. Dirigiu a desmontagem o Engº Castelo Branco, coadjuvado pelo Escultor João Machado Júnior. A Câmara Municipal encarregou-se do transporte da cantaria, colocada no Museu pelo Arquitecto Baltazar de Castro, sendo encarregado da obra o Mestre Manuel Cardoso. O claustro inferior foi executado em 1555 por João Luís. Todo o edifício está assente num sistema engenhoso de estacaria em pinho, implantado cerca de 15 metros acima dos alicerces.

     Pouco se sabe das anteriores utilizações do terreno da implantação deste Colégio, embora no livro “Notas sobre a estrutura urbana da Aeminium”, de V. G. Mantas, edição de 1992, na página 500, se encontre uma referência à existência de uma necrópole islâmica “marmoiral de moiros”, no troço final da Rua da Sofia.

     Da fábrica primitiva apenas resta o claustro térreo renascentista e o pátio interior. Remontará também ao período inaugural da construção, o portal da fachada norte, em arco de volta perfeita, encimada pela estátua do patrono S. Tomás, hoje implantado na fachada lateral do Museu Machado de Castro.

     Em 1808, durante as invasões francesas, o Colégio de S. Tomás serviu de Quartel General das tropas invasoras comandadas por Junot. Era altura dos livros e sebentas darem lugar aos sabres e carabinas ou a qualquer utensílio doméstico ou agrícola, adaptados a uma nova função – chacinar os franceses. Foram formados, neste período, os célebres Batalhões Académicos impulsionados pelo estudante Bernardo Zagalo. No Laboratório Chimico, fabricou-se pólvora e outras munições de guerra, que os franceses haveriam de “provar”. Com a chegada a Coimbra de um Comando do exército, vindo do Porto, com centenas de patriotas voluntários que eram incorporados pelo caminho, montou-se uma estratégia, juntamente com o Batalhão Académico, de ataque ao bastião dos franceses na cidade – o Colégio de S. Tomás. Tomado o Colégio seguiu-se a libertação e ocupação da Câmara Municipal e do Mosteiro de Santa Cruz. Depois desta triunfante resistência na cidade, prosseguiram as façanhas heróicas destes Batalhões na tomada do Forte de Santa Catarina na Figueira da Foz e nas tomadas dos Fortes da Nazaré e de Peniche até ao desembarque dos nossos “aliados” ingleses.

     Com o fim da Guerra Peninsular e a expulsão dos franceses, foi retomado o ensino no Colégio até à extinção das ordens religiosas, conforme o estipulado no Decreto de 31 de Maio de 1834, tendo sido incorporado na Fazenda Nacional.

     No período que se seguiu, de instabilidade política e de crise social, assistiu-se à degradação do imóvel, que passou a funcionar como armazém de madeiras e fábrica de móveis até 1892, data em que foi adquirido pela família dos Condes do Ameal.

     Coube ao Arquiteto Augusto da Silva Pinto em 1895, a incumbência de projetar a transformação do Colégio de S. Tomás em Palacete Senhorial. Desse projeto, que não chegou a concretizar-se na sua totalidade, chegaram até nós as linhas neo-renascentistas. As fachadas sul e posterior, voltadas, respetivamente, para as Ruas Manuel Rodrigues e Rosa Falcão, atingiram o aspeto que hoje lhe conhecemos. A fachada principal nunca chegou a entrar em obras, tendo mantido, até 1928, o aspeto herdado do Colégio de S. Tomás.

     Em 25 de Janeiro de 1928, o palacete veio a ser adquirido, por 625 contos, pelo Ministério da Justiça à firma A. Amado, Lda. A remodelação do Palacete Ameal e sua conversão em Palácio da Justiça foi então confiada a uma comissão presidida pelo Presidente da Relação de Coimbra, Dr. Forjaz de Sampaio, que entregou o estudo do projeto ao Engenheiro Manuel de Azevedo Castelo Branco, que enveredou por adotar a versão neo-renascentista, em curso desde os trabalhos do Arquiteto Silva Pinto. As obras de serralharia foram entregues a Daniel Rodrigues que, juntamente com Albertino Marques e António da Conceição, executou, em ferro forjado, os grandes portões da entrada principal. No portão central existe uma simbólica figura da Justiça que teve como modelo uma filha de Daniel Rodrigues, a D. Maria Augusta. No interior de cada medalhão, os artistas deixaram moedas de 10$00 em prata. O entalhado das principais portas é da autoria de Álvaro Ferreira. Os painéis cerâmicos foram executados pelo pintor ceramista Jorge Colaço da Cerâmica Lusitânia. Por sua vez, a obra escultórica foi entregue a João Machado Júnior, o qual fora chamado a continuar a obra do pai (João Machado), que tinha trabalhado desde os finais do século XIX até ao primeiro quartel do século XX no Palacete Ameal. Na fachada principal o Frontão foi desenhado pelo escultor portuense Henrique Moreira e executado por João Machado Júnior; em Outubro de 1961 foi colocada no lado sul em nicho próprio, uma escultura representando a jurisprudência, da autoria do escultor conimbricense Cabral Antunes.

     A obra, concluída como a conhecemos hoje, foi inaugurada em 6 de Maio de 1934.